sábado, 30 de junho de 2012

Até mais ver




As chamas da fogueira já se extinguiram com mais uma noite de São Pedro, na última reverência aos festejos a São José, Santo Antônio e a São João do Carneirinho. Agora, nas comunidades rurais, é hora de esperar a colheita dos frutos agrícolas. Ao longo dos anos, por tradição familiar, sempre associei as festas juninas ao tempo do plantio, da boa aventurança, da fartura e da lida na colheita do feijão e do milho.

Agora, o tempo é reinventado pelas novas tecnologias e pela facilidade dos produtos vendidos no supermercado. Em alguns lugares, banhados pela fartura da irrigação, já não é necessário esperar as chuvas; em outras, como na região semiárida, o tempo é de escassez de água. Com a estiagem prolongada desse ano, foram poucas as famílias que conseguiram assar o milho na fogueira e fazer a pamonha. A flor do milho não brotou.

Na noite de São João, minha mãe teve um pouco de sorte. Fez a canjica com o milho plantado em uma área irrigada no agreste da cidade baiana de Paripiranga. Espantada, ela me contava que o vizinho teve uma pequena colheita, pois aproveitara as águas de um poço artesiano. É o tempo se reinventando pelas tecnologias, pela água que brota do poço. E me lembrei de quando íamos para a roça colher algumas espigas germinadas com as águas do mês de março, abençoadas por São José. Foi-se o tempo... 

Nesse ano, distante do lugar onde nasci, cresci, tive que me contentar com a canjica comprada no shopping center. Isso porque, no ano passado, os meus dotes culinários não passaram no teste. Experimentei grãos semipreparados, desses encaixotados numa caixa que nos promete o gostinho familiar de canjiquinha. No máximo, ficou um mingau de milho! Quem manda não ter aprendido a receita da avô, passada para a mãe! A modernidade tem disso, alguns se esquecem de aprender com os antepassados. 

Para não ficar sem o sabor da infância rememorada pelas festas, recorri a compra de última hora: a canjica de Cássia salvou o meu São João. Mas também teve o bolo delicioso de milho. Salve, salve Adriana!

Mas se é chegada a hora de guardar o licor, varrer a brasa da fogueira de São Pedro, em homenagem a meu pai que se chamava Pedro, de guardar a blusa de xadrez, também é o momento de pensar no que se eterniza, como as memórias que reforçam os nossos laços de pertencimento com a família, com a infância que permanece cá dentro de nós, com os amigos que se reuniram, com a tradição dos terços e novenas, com a musicalidade do forró. Memórias que nos situam em um tempo social, lugar e reafirmam algumas tradições, ressignificadas pelas mudanças sociais, novos hábitos, costumes. 

Para nós, nordestinos, é tempo de relembrar as músicas de Luiz Gonzaga, que este ano comemoraria 100 anos se vivo estivesse; outros dirão que é hora de lembrar as canções dos grupos universitários e dos festejos no palco eletrônico. Cada pessoa se emociona, se envolve com o que mais acalanta o coração. Para cada um, independente do gosto musical, o festejo junino será sempre um viva à esperança. Até mais ver São José, Santo Antônio, São João do Carneirinho e São Pedro...

Por Andréa Cristiana (T)
Fotos gentilmente cedidas pelo jornalista e fotojornalista Emerson Rocha.

A menina




Quem não se emociona com o colorido da festa junina, com as cores do vestido,com a música, com o gostinho das comidas..? Sempre é bom festejar o São João. Como disse o jornalista Xico Sá em um artigo,  "esta festa que no Nordeste consegue ser mais importante que o Natal, o Carnaval"...Para celebrar tudo isso, agradeço a minha amiga e fotojornalista Patrícia Telles que fez essa linda imagem de "A menina"...e Viva São João que se despede de nós até o próximo ano.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quando uma noite pode terminar em chamas


Morar em uma metrópole traz muitos desafios e exige uma certa impessoalidade. Adaptar-se a essa nova realidade requer novas posturas. Uma delas é a atitude blasé, termo usado pelo antropólogo Georg Simmel para caracterizar o comportamento dos habitantes das cidades urbanas, que, para não serem massacrados pelo excesso de acontecimentos quotidianos, procuram agir reservadamente, com indiferença.

É assim que, nos edifícios, nas ruas ninguém parece mais reagir ao caminhar apressado do outro em busca do trabalho; nem na nordestina que pergunta onde encontrar uma rua. Afinal, com sistema Google Maps é mais fácil encontrá-la do que perguntar ao jornaleiro da esquina, mesmo que ele more no bairro há 30 anos. 

Tudo se transforma em números, na indiferença necessária para que as pessoas não sejam distinguidas da multidão. Assim, o transporte público segue códigos, e não adianta perguntar ao vizinho qual “buzu” passa no bairro mais próximo.  Com certeza, vai ouvir uma sequência de números. 

E assim, a vida segue. Você compra pão todo dia na mesma padaria, mas o atendente finge que não te reconhece. Imagina, se vai desejar bom dia. É comprar o pão e ficar satisfeito se ele olhar para você na hora de entregar. Na convivência com colegas de trabalho, também não espere receptividade  de imediato. As pessoas vão falar pouco de si. 

Pois bem, já estava me acostumando com essas atitudes blasé, quando em uma noite acordei com barulho de vidro se quebrando. Ao longe, ouvi gritos. Pensei: poxa, será que teve confusão nos botecos e alguém se machucou. Como os gritos continuavam, corri para a janela. Virgem Maria, fogo! O apartamento do vizinho do quarto andar estava em chamas. Na hora, as pernas tremaram, estava no sétimo andar e não sabia o que fazer. O fogo se alastrava para o apartamento do quinto andar. 

Liguei logo para o marido, a dois mil quilômetros, mas era a única pessoa que poderia chamar naquela hora. A resposta imediata foi: vista-se, pegue os documentos, uma toalha molhada e desça as escadas. Fiz quase tudo isso em segundos, enquanto a rua era tomada pelas sirenes do carro de bombeiros. Se por um lado foi um alívio, a fumaça que avançava pelos corredores do prédio me fez ver que era impossível descer as escadas. 

Nesse momento, os vizinhos também acordaram. E, pela primeira vez, em três meses, reconheci rostos que nunca tinha visto. Um homem, que descobri se tratar do subsíndico, corria apressado pelo corredor, com mangueiras d’água; a moça do oitavo andar desceu esbaforida pelas escadas, porque acordara com fumaça no quarto; uma senhora pedia calma e o meu vizinho que parecia já ter presenciado incêndio semelhante foi logo dizendo: só assim a gente conhece quem mora no prédio! 

Às quatro horas da manhã, todos se protegiam do incêndio. Uma hora depois, o fogo foi extinto. O apartamento do quarto andar totalmente destruído; o quinto, também, e o sexto com pequenos estragos na tela de proteção da janela.  

Depois de tudo calmo, a atitude blasé tinha deixado de existir. Se antes os corredores do prédio se mantinham vazios, agora por entre suas portas saía todo tipo de gente, os tipos mais extraordinários, demonstrando a multiplicidade de pessoas e comportamento. A senhora que morava no sexto andar caminhava de camisola com toalha no rosto; a sua vizinha dizia a todos que o incêndio nem fora grave. Há seis anos, todo o segundo andar ficou em chamas. E ela, que morava há 42 anos no prédio, avisava: para morar aqui, é preciso se acostumar com incêndio. Vixe, isso eu não quero não!, pensei.

Depois, começou o disse-me-disse sobre as causas do incêndio. Ninguém sabia ao certo, apenas que o morador do quarto andar desceu as escadas gritando que o apartamento estava em chamas. E as especulações continuaram durante todo o dia. Para aquietar os moradores, o sindico colocou uma mensagem informando que a perícia investigaria as causas do sinistro. Por ora, era essa a única informação disponível.

Curiosa, perguntei aos porteiros. Sem sucesso. Três dias depois, encontrei casualmente o síndico no elevador. Conversa-vai-conversa-vem, perguntei sobre a causa do incêndio. 
- Curto-circuito no ar condicionado, respondeu. 
- E o morador, já se recuperou?
- Não tem morador. O dono emprestou a chave para um amigo que precisou dormir com uma amiga naquela noite. 

Ah, então foi isso.....Só me restava gargalhar da situação. A noite tinha sido realmente quente, labaredas foram consumidas e o prejuízo enorme. O bom é que, por horas, o prédio perdeu a sua sisudez característica, deixara de ser apenas uma estrutura com doze andares, vinte apartamentos de apenas 40 metros. O prédio era gente de diversas feições, gostos, culturas, uma babel cosmopolita, que me causou riso, depois de recuperada do susto. Enfim, naquela madrugada, a atitude blasé não resistiu ao incêndio. 

Reagimos a sinal de fogo, pelo menos! 

Andréa Cristiana Santos. Texto publicado na edição do Gazzeta do São Francisco.
A foto foi feita pelo jornalista Raphael Leal, procurando capturar o nascer do dia. 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Tessituras



Um dia folheando um livro, encantei-me com a palavra Ariadne, alusão ao mito grego da jovem que procura salvar o seu amado Teseu, perdido no labirinto e, possivelmente, prestes a ser devorado pelo minotauro. Para que não se esvaísse no labirinto, como outros jovens sacrificados, Ariadne sugeriu que ele fugisse. Teseu resistiu, enfrentaria o minotauro. Então, ela desfiou o novelo e o entregou, por entre seus dedos segurou uma parte do novelo, ele a outra. Caso fosse vitorioso, ele retornaria, bastava seguir o fio. O guerreiro, por fim, retornou para Ariadne.


Muito tempo depois, encontrei esta palavra novamente. Fio de Ariadne, agora, significava a capacidade que temos de coser o futuro e relembrar tudo que vivemos. Desfiar o fio é como um retorno, um olhar para si, para o outro, para ver o que o futuro nos reserva. 

Como diz a pesquisadora Eclea Bosi, para localizar uma lembrança, não basta apenas um fio de Ariadne é preciso desenrolar fios de meadas diversas, pois o ato de lembrar é um ponto de convergência dos muitos planos do nosso passado. 

Seguindo as pistas de Éclea, pretendo narrar algumas histórias, desfiar lembranças, narrativas de mim, sobre outros (cada pessoa sempre traz as marcas de tantas outras pessoas) e sobre o jornalismo. A tessitura para tudo isso ainda é uma incógnita, mas ela pode se chamar memória

Andréa Cristiana (Texto)
Foto do professor Dogival Torquato, do rio em Curaçá.