sábado, 25 de agosto de 2012

Sobre jornal, tempo e espaço


Desde que soube que o Gazzeta do São Francisco se tornou um jornal semanal, pensei em escrever. As ideias surgiam, enquanto caminhava, andava de ônibus, ou fazia coisas rotineiras; cozinhar, comer, estudar, olhar o facebook - afinal esse hábito é quase condição sine qua non da nossa existência no mundo atual. Com a rede social, as pessoas não conversam, digitam, o toque dos dedos é a extensão do nosso corpo no mundo.

E as ideias foram se modificando: do espanto, nasceu uma tentativa de compreensão mais racional. Pensei como a relação que temos com o jornal mudou. Por mais que tenhamos nascidos no século passado onde a leitura textual era mediada pelas letras impressas, há mudanças, e já não somos mais os mesmos, as águas correm e nos modificam.

O jornal, como a própria palavra derivada do latim diurnales remete, nada mais é do que um diário, que publica aquilo que foi pescado pela corrente do tempo. Durante quase dois séculos, convivemos com as notícias impressas diariamente, embora a relação de periodicidade tenha se alternado constantemente.  E quando percebemos que essa relação com a notícia será mediada semanalmente, novos desafios se impõem à empresa jornalística, ao jornalista, às empresas que colocam publicidade e ao leitor.

À empresa jornalística, exige-se um produto de qualidade - na impressão, no oferecimento de notícias mais aprofundadas e na valorização do seu profissional -, porque se trata de um novo produto, cuja fidelização com o leitor muda. 

Ao jornalista, a perspicácia e a inteligência de fazer a notícia pensando na sua duração. O factual é imprescindível, porém com a análise e o frescor das coisas novidadeiras, do presente que se estende, ora em diálogo com o passado, ora perscrutando o futuro. Notícia velha não existe em jornalismo.  A estética é essencial, a narrativa, a criação também.  O lead – termo técnico usado por nós, jornalistas, para trazer as informações mais relevantes no primeiro parágrafo – sofre as variáveis da relação temporal e exigirá maior capacidade de entendimento do que de fato é relevante. De certa forma, isso é ótimo para que todos percebam que o lead nunca foi a escrita do que aconteceu ontem, em um dado lugar. Isso é balela. A abertura de um texto é crucial para capturar a atenção do leitor. Mas isso é apenas uma das mudanças, outras hão de vir. 

Preocupa-me pensar em um sujeito que é quase ausente quando pensamos o produto jornal: o anunciante. E aí a constatação triste: temos duas cidades com um capital econômico relevante, porém  são pouquíssimas as empresas que valorizam o impresso como veículo capaz de divulgar a marca, vender o produto ao leitor. Sem anúncios publicitários, o produto jornal perece.

Por fim, o leitor. Será que sente a falta do produto diário, mediando suas relações sociais, culturais e de percepção, inclusive, com o tempo? Ou se rendeu aos outros meios, pois já não sente falta da leitura em casa, o jornal deixado displicentemente na mesa, no sofá à espera do ato de ler em silêncio, contemplativo a qualquer hora do dia? O leitor é capaz de ler o mundo a partir de variados suportes, um veículo não exclui o outro. Mas pelo que ouvimos nas ruas, o suporte online permite uma visualidade maior. E isso é perceptível ao publicar um texto no meio online, pois o corpo do autor – e não apenas a sua capacidade de argumentar – é facilmente reconhecível. Você é parado na rua e alguém comenta: eu li o seu texto. 

É óbvio que não há nada de novo nesse comentário, apenas uma nova relação que se estabelece com a difusão da notícia. Quando os periódicos surgiram, a extensão da nossa casa era a praça, onde todos conversavam e se reconhecia quem publicava no impresso. As cidades se modernizaram, a praça não é a nossa única extensão, os jornais, inclusive, serviram para ampliar o debate público.

Hoje, a notícia se espalha e encontra inúmeros leitores. E aí se localiza outra obviedade: é o leitor a razão de existência do jornal,  não é tão-somente a redução de custos ou a adaptação aos novos tempos. Por isso, desejo vida longa ao Gazzeta como jornal semanal e peço que nos trate como leitores, pessoas que precisam de informação jornalística qualificada em qualquer suporte, como um mediador da nossa relação com o tempo e com o espaço social.

P.S: Como sinal dos novos tempos, o texto precisa ser menor. Tentei, mas foi inútil. As palavras impressas ainda clamam por mais espaço do papel.  


Andréa Cristiana Santos, texto publicado na edição do Gazzeta do São Francisco, que circula, hoje, sábado, 25 de Agosto.
Foto: Divulgação recolhida do blog Notícias do Bem -