segunda-feira, 8 de abril de 2013

Vaivém das palavras


As palavras sempre me seduziram. Talvez, porque elas me levassem a uma outra realidade que superava a aridez da terra onde nasci e vivi minha adolescência. No pequeno povoado, no semiárido nordestino, as palavras ora chegavam por cantorias, rezas, bendizeres, nas missões em busca de água para sobreviver a mais uma seca; ora vinham impressas em jornais velhos, curtidos pelo tempo.


Chegavam para embrulhar as compras na mercearia do meu pai, pequenos objetos, alimentos. Entretida no meio da leitura, só ouvia meu pai falar: traga o jornal, preciso embrulhar o arroz! E a reportagem com o sucesso dos Titãs seguia para a casa do vizinho.

Mesmo com atraso, os jornais traziam novidades e me faziam encontrar mundos desconhecidos. Para além da mercearia, da igreja, da escola, descobri que havia um mar de coisas a se desbravar. As palavras impressas me conduziam aos lugares que não conhecia, cidades, montanhas, a gente de toda parte... Em pleno sertão, a leitura me fazia enxergar possibilidades infinitas, todo um universo com luz, cor, cheiros e vida.

Assim, descobri a leitura, assim recriava histórias. Certo dia, li um trecho do livro de Clarissa, de Érico Veríssimo. E passei a copiar como se fosse a autora do texto, criava parágrafos, histórias vividas. Lembro que entreguei o texto a um amigo que me disse: você escreve coisas bonitas. Mas eram histórias inventadas, histórias que me permitiam criar um mundo imaginado.

Um dia, apareceu em minha casa uma raridade. O livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Não sei como aconteceu, mas o livro fora vendido na feira junto com os cordéis, o saco de farinha, as verduras. Deve ter sido uma das primeiras edições do livro, porque o papel não tinha qualidade, feito com páginas amareladas, era velho. E ao mergulhar na leitura, descobri que todos nós latino-americanos temos um pouco de Macondo ou desejamos que a nossa vida seja uma invenção.

As histórias da família Buenida-Iguaran pareciam ter saído do universo da minha pequena comunidade, com suas pequenas alegrias, tragédias e alegorias fantásticas. Era o povoado do Saquinho, no sertão baiano de Paripiranga, transportado para Macondo. Não era igual. Claro, era completamente diferente.

Naquele momento descobri que a leitura é capaz de nos recriar, de nos transportar, de ousar sonhar e imaginar coisas. E assim fui me encantando com as palavras, porque elas me conduziam a um mundo fantástico e me colocavam no lugar do outro.

Com o tempo, contraditoriamente, descobri que o mundo da escrita me põe medo, porque, ao colocar no papel as palavras impressas, um pouco de nós também fica. Como no espelho de Alice, no país encantado das maravilhas, tenho medo de ser capturada. E de não saber se sou real ou uma invenção. 

Andréa Cristiana

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Quereres



Não sei como, mas o desejo apareceu de repente.
Sonhou que tinha uma casinha e ela seria em frente ao mar, onde passaria
a velhice vendo o vaivém das ondas.
Confesso, endoidou-se! 
Ele na casa dos 56 decidira sonhar com o mar.
Sempre andara na roça, labutando com a terra, levantando postes de madeira, pastoreando os animais. Agora, se encantara com o cheiro da maresia. 
Como iria fazer? Nem no rio, eu o vira banhar-se. Suas mãos não conseguiriam jogar a rede, não pegariam o peixe. 
Desacreditei. 
Um dia, deixou a casa, a mercearia, os amigos, percorreu quilômetros até que colocou os pés na areia. 

Olhou
      suspirou
                  embriagou-se...

O mar ficou, o pai se foi.


Andréa Cristiana