quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quando uma noite pode terminar em chamas


Morar em uma metrópole traz muitos desafios e exige uma certa impessoalidade. Adaptar-se a essa nova realidade requer novas posturas. Uma delas é a atitude blasé, termo usado pelo antropólogo Georg Simmel para caracterizar o comportamento dos habitantes das cidades urbanas, que, para não serem massacrados pelo excesso de acontecimentos quotidianos, procuram agir reservadamente, com indiferença.

É assim que, nos edifícios, nas ruas ninguém parece mais reagir ao caminhar apressado do outro em busca do trabalho; nem na nordestina que pergunta onde encontrar uma rua. Afinal, com sistema Google Maps é mais fácil encontrá-la do que perguntar ao jornaleiro da esquina, mesmo que ele more no bairro há 30 anos. 

Tudo se transforma em números, na indiferença necessária para que as pessoas não sejam distinguidas da multidão. Assim, o transporte público segue códigos, e não adianta perguntar ao vizinho qual “buzu” passa no bairro mais próximo.  Com certeza, vai ouvir uma sequência de números. 

E assim, a vida segue. Você compra pão todo dia na mesma padaria, mas o atendente finge que não te reconhece. Imagina, se vai desejar bom dia. É comprar o pão e ficar satisfeito se ele olhar para você na hora de entregar. Na convivência com colegas de trabalho, também não espere receptividade  de imediato. As pessoas vão falar pouco de si. 

Pois bem, já estava me acostumando com essas atitudes blasé, quando em uma noite acordei com barulho de vidro se quebrando. Ao longe, ouvi gritos. Pensei: poxa, será que teve confusão nos botecos e alguém se machucou. Como os gritos continuavam, corri para a janela. Virgem Maria, fogo! O apartamento do vizinho do quarto andar estava em chamas. Na hora, as pernas tremaram, estava no sétimo andar e não sabia o que fazer. O fogo se alastrava para o apartamento do quinto andar. 

Liguei logo para o marido, a dois mil quilômetros, mas era a única pessoa que poderia chamar naquela hora. A resposta imediata foi: vista-se, pegue os documentos, uma toalha molhada e desça as escadas. Fiz quase tudo isso em segundos, enquanto a rua era tomada pelas sirenes do carro de bombeiros. Se por um lado foi um alívio, a fumaça que avançava pelos corredores do prédio me fez ver que era impossível descer as escadas. 

Nesse momento, os vizinhos também acordaram. E, pela primeira vez, em três meses, reconheci rostos que nunca tinha visto. Um homem, que descobri se tratar do subsíndico, corria apressado pelo corredor, com mangueiras d’água; a moça do oitavo andar desceu esbaforida pelas escadas, porque acordara com fumaça no quarto; uma senhora pedia calma e o meu vizinho que parecia já ter presenciado incêndio semelhante foi logo dizendo: só assim a gente conhece quem mora no prédio! 

Às quatro horas da manhã, todos se protegiam do incêndio. Uma hora depois, o fogo foi extinto. O apartamento do quarto andar totalmente destruído; o quinto, também, e o sexto com pequenos estragos na tela de proteção da janela.  

Depois de tudo calmo, a atitude blasé tinha deixado de existir. Se antes os corredores do prédio se mantinham vazios, agora por entre suas portas saía todo tipo de gente, os tipos mais extraordinários, demonstrando a multiplicidade de pessoas e comportamento. A senhora que morava no sexto andar caminhava de camisola com toalha no rosto; a sua vizinha dizia a todos que o incêndio nem fora grave. Há seis anos, todo o segundo andar ficou em chamas. E ela, que morava há 42 anos no prédio, avisava: para morar aqui, é preciso se acostumar com incêndio. Vixe, isso eu não quero não!, pensei.

Depois, começou o disse-me-disse sobre as causas do incêndio. Ninguém sabia ao certo, apenas que o morador do quarto andar desceu as escadas gritando que o apartamento estava em chamas. E as especulações continuaram durante todo o dia. Para aquietar os moradores, o sindico colocou uma mensagem informando que a perícia investigaria as causas do sinistro. Por ora, era essa a única informação disponível.

Curiosa, perguntei aos porteiros. Sem sucesso. Três dias depois, encontrei casualmente o síndico no elevador. Conversa-vai-conversa-vem, perguntei sobre a causa do incêndio. 
- Curto-circuito no ar condicionado, respondeu. 
- E o morador, já se recuperou?
- Não tem morador. O dono emprestou a chave para um amigo que precisou dormir com uma amiga naquela noite. 

Ah, então foi isso.....Só me restava gargalhar da situação. A noite tinha sido realmente quente, labaredas foram consumidas e o prejuízo enorme. O bom é que, por horas, o prédio perdeu a sua sisudez característica, deixara de ser apenas uma estrutura com doze andares, vinte apartamentos de apenas 40 metros. O prédio era gente de diversas feições, gostos, culturas, uma babel cosmopolita, que me causou riso, depois de recuperada do susto. Enfim, naquela madrugada, a atitude blasé não resistiu ao incêndio. 

Reagimos a sinal de fogo, pelo menos! 

Andréa Cristiana Santos. Texto publicado na edição do Gazzeta do São Francisco.
A foto foi feita pelo jornalista Raphael Leal, procurando capturar o nascer do dia. 

6 comentários:

  1. Adorei o texto, Andrea. Mas deixando de lado questões técnicas, acho que isso, além de ser característica de "cidade grande" é também de prédio. Acredito que em residência (ou bairro residencial) pode ser um pouco diferente. Você conhece toda a vizinhança, se encontra nas missas, encara o padeiro quase como um tio, e ele, que te viu crescer, te encara como uma eterna criança...

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    1. Will, obrigada pelo comentário. A sensação é justamente essa. Para a gente que mora em cidade do interior, em bairros residenciais, casa, é estranho morar em um prédio, mesmo aqui em cidades pequenas, a galera quer incorporar atitude blasé, cumprimentar pouco. Agora, eu conheci no Rio, bairros populares, com casas, que se parecem um pouco com o interior. Valeu. Beijo

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  2. Parabéns pelo texto, Andréa!
    Muito bacana a sensibilidade que vc consegue verbalizar!!

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    1. Oi Willyssys obrigada. Estou voltando a escrever coisas leves, agora que só me dedico aos estudos. Essa semana devo escrever algo. Também vou colocar textos antigos.

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