sábado, 25 de agosto de 2012

Sobre jornal, tempo e espaço


Desde que soube que o Gazzeta do São Francisco se tornou um jornal semanal, pensei em escrever. As ideias surgiam, enquanto caminhava, andava de ônibus, ou fazia coisas rotineiras; cozinhar, comer, estudar, olhar o facebook - afinal esse hábito é quase condição sine qua non da nossa existência no mundo atual. Com a rede social, as pessoas não conversam, digitam, o toque dos dedos é a extensão do nosso corpo no mundo.

E as ideias foram se modificando: do espanto, nasceu uma tentativa de compreensão mais racional. Pensei como a relação que temos com o jornal mudou. Por mais que tenhamos nascidos no século passado onde a leitura textual era mediada pelas letras impressas, há mudanças, e já não somos mais os mesmos, as águas correm e nos modificam.

O jornal, como a própria palavra derivada do latim diurnales remete, nada mais é do que um diário, que publica aquilo que foi pescado pela corrente do tempo. Durante quase dois séculos, convivemos com as notícias impressas diariamente, embora a relação de periodicidade tenha se alternado constantemente.  E quando percebemos que essa relação com a notícia será mediada semanalmente, novos desafios se impõem à empresa jornalística, ao jornalista, às empresas que colocam publicidade e ao leitor.

À empresa jornalística, exige-se um produto de qualidade - na impressão, no oferecimento de notícias mais aprofundadas e na valorização do seu profissional -, porque se trata de um novo produto, cuja fidelização com o leitor muda. 

Ao jornalista, a perspicácia e a inteligência de fazer a notícia pensando na sua duração. O factual é imprescindível, porém com a análise e o frescor das coisas novidadeiras, do presente que se estende, ora em diálogo com o passado, ora perscrutando o futuro. Notícia velha não existe em jornalismo.  A estética é essencial, a narrativa, a criação também.  O lead – termo técnico usado por nós, jornalistas, para trazer as informações mais relevantes no primeiro parágrafo – sofre as variáveis da relação temporal e exigirá maior capacidade de entendimento do que de fato é relevante. De certa forma, isso é ótimo para que todos percebam que o lead nunca foi a escrita do que aconteceu ontem, em um dado lugar. Isso é balela. A abertura de um texto é crucial para capturar a atenção do leitor. Mas isso é apenas uma das mudanças, outras hão de vir. 

Preocupa-me pensar em um sujeito que é quase ausente quando pensamos o produto jornal: o anunciante. E aí a constatação triste: temos duas cidades com um capital econômico relevante, porém  são pouquíssimas as empresas que valorizam o impresso como veículo capaz de divulgar a marca, vender o produto ao leitor. Sem anúncios publicitários, o produto jornal perece.

Por fim, o leitor. Será que sente a falta do produto diário, mediando suas relações sociais, culturais e de percepção, inclusive, com o tempo? Ou se rendeu aos outros meios, pois já não sente falta da leitura em casa, o jornal deixado displicentemente na mesa, no sofá à espera do ato de ler em silêncio, contemplativo a qualquer hora do dia? O leitor é capaz de ler o mundo a partir de variados suportes, um veículo não exclui o outro. Mas pelo que ouvimos nas ruas, o suporte online permite uma visualidade maior. E isso é perceptível ao publicar um texto no meio online, pois o corpo do autor – e não apenas a sua capacidade de argumentar – é facilmente reconhecível. Você é parado na rua e alguém comenta: eu li o seu texto. 

É óbvio que não há nada de novo nesse comentário, apenas uma nova relação que se estabelece com a difusão da notícia. Quando os periódicos surgiram, a extensão da nossa casa era a praça, onde todos conversavam e se reconhecia quem publicava no impresso. As cidades se modernizaram, a praça não é a nossa única extensão, os jornais, inclusive, serviram para ampliar o debate público.

Hoje, a notícia se espalha e encontra inúmeros leitores. E aí se localiza outra obviedade: é o leitor a razão de existência do jornal,  não é tão-somente a redução de custos ou a adaptação aos novos tempos. Por isso, desejo vida longa ao Gazzeta como jornal semanal e peço que nos trate como leitores, pessoas que precisam de informação jornalística qualificada em qualquer suporte, como um mediador da nossa relação com o tempo e com o espaço social.

P.S: Como sinal dos novos tempos, o texto precisa ser menor. Tentei, mas foi inútil. As palavras impressas ainda clamam por mais espaço do papel.  


Andréa Cristiana Santos, texto publicado na edição do Gazzeta do São Francisco, que circula, hoje, sábado, 25 de Agosto.
Foto: Divulgação recolhida do blog Notícias do Bem -

sábado, 28 de julho de 2012

Zuzu Angel e a luta pelo seu filho


Quem é essa mulher, que canta sempre esse estribilho. Só queria embalar meu filho que mora na escuridão do mar. Nos anos 70, Chico Buarque ousou, a despeito do medo e o horror implantado pelo regime militar, falar da dor de Zuzu Angel em busca do seu filho, Stuart Edgar Angel Jones. Chico renunciou ao silêncio e denunciou o sofrimento de mães que tiveram os filhos assassinados.

Trinta e cinco anos após a morte de Stuart, a luta de Zuzu Angel foi levada ao cinema. O que há de peculiar no drama de Zuzu, corpo e alma dilacerados pelo filho assassinado covardemente, é perceber como o passado está presente nas nossas vidas. Pensar em Zuzu é relembrar o drama de outras mães que tiveram filhos mortos, cujos corpos nunca foram encontrados. É expor, aos nossos olhos, o silêncio da sociedade brasileira que apoiou o golpe militar sob alegação hipócrita de que pretendia restaurar a democracia. 

Qual democracia? Quando os militares destituíram João Goulart, em 1964, romperam com a ordem constitucional e instauraram o autoritarismo, resultando no assassinato dos que se opunham à falta de liberdade política. Como Stuart Edgar, muitos jovens aderiram ao movimento de guerrilha armada porque acreditavam que não deveriam negligenciar a coragem dos que almejam a livre expressão, ousar sonhar, ousar lutar. 

Ainda é uma ferida exposta na sociedade brasileira compreender porque jovens desafiaram o regime militar. Para muitos, eram idealistas sob o fulgor da juventude. Os militares diziam: são jovens comunistas em guerra contra a nação. Porém, como bem retrata o filme, que guerra é esta que condena à morte sem direito à defesa? Os militares não são os únicos a serem responsabilizados pelo aniquilamento de militantes. Empresários financiaram a caça aos supostos comunistas, os meios de comunicação silenciaram sobre suas mortes e se recusaram a falar a verdade. 

Zuzu Angel nos conclama a refletir porque permanece um silêncio sobre esse apoio ao golpe militar e à repressão política. A anistia política aos crimes praticados por militantes e pelos torturadores não significa que devemos esquecer o passado. Pelo contrário, o passado é algo sempre vivo. 

Para os que não querem silenciar sobre o que foi o regime militar, relembremos de um fato ocorrido em Petrolina, em 27 de maio de 1974. Neste dia, o militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) Ruy Frazão, que iniciou a militância na  Ação Popular, organização de esquerda originária dos grupos da juventude católica, foi morto, em circunstâncias não esclarecidas, quando estava em uma feira popular na cidade. Ruy, que morava em Juazeiro com o nome de Luiz Antonio Silva Moraes, foi espancado por três policiais e nunca mais foi visto. Onde foi enterrado Ruy? Quais as circunstâncias da morte? Quem o matou? São perguntas que não querem calar. 

Resta-nos indagar se não somos omissos sobre fatos semelhantes ocorridos no país e que só ganham existência para os familiares. Somos um povo sem memória, um povo que aceitou que jovens fossem mortos. Somos uma nação que se constrói sob o silêncio. Saber que um filho morreu, causa-nos dor. Muito mais dilacerante é o silêncio de não saber como morreu e quem o matou. Zuzu Angel nos convoca a sair do silêncio e a exigir justiça e transparência sobre o passado. A todos os assassinados pelo regime militar, dou-lhes minha voz e lhes digo Presente!  

P.s: Esse texto foi publicado no Gazzeta do São Francisco, em agosto de 2006. Hoje, na edição do Gazzeta do São Francisco, de 28 de Julho de 2012, a jornalista Karem Morães publicou matéria especial sobre a morte e desaparecimento de Ruy Frazão. 

Para conhecer um pouco da vida de Zuzu Angel e a sua luta em busca das circunstâncias da morte do filho, utilizando-se da sua arte como estilista e dos "desfile-protestos" para denunciar a ditadura militar, clique aqui.  

Andréa Cristiana Santos

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Lembranças de um filho


Primeiro de abril de 1964, militares com apoio da população civil destituíram João Goulart e assumiram o poder. Em todo o país, trabalhadores, sindicalistas e comunistas foram presos. Contudo, as vítimas não foram apenas militantes históricos.

Em Juazeiro, como nos contou a jornalista em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia, Karem  Moraes, em reportagem especial para o Gazzeta do São Francisco, que circulou ontem (26/07), o professor Chico Romão foi uma das pessoas presas, acusadas de subversão.

Chico Romão era um professor, pai de família e um homem muito conhecido na cidade. Homem com ideias firmes e princípios. Professor de Matemática, ensinava no Ginásio Ruy Barbosa, foi preso em abril de 1964 e ficou três meses detido em Salvador. No momento da prisão, muitos de sues alunos e alunas o viram sendo conduzido em uma caminhonete, exposto nas ruas da cidade, como uma forma de demonstrar para a população que, qualquer pessoa, poderia ser atingida pela repressão. Um ato para  disseminar o medo e o horror, pois essa era a lógica da Doutrina de Segurança Nacional, que foi praticada por militares e apoiada também por civis.  

A prisão de Chico Romão e de outros juazeirenses precisa ser esclarecida pelo Estado Brasileiro, por meio dos documentos policiais que contam e narram as circunstâncias e os motivos das detenções. A Comissão da Verdade, instituída pela presidente Dilma, tem esse desafio: o de que toda a sociedade brasileira compreenda e conheça o que aconteceu durante a ditadura civil-militar. É necessário que todos tenhamos o Direito à Memória e à Verdade Histórica. 

É preciso ainda que outros relatos jornalísticos sobre a prisão de pessoas na cidade de Juazeiro se tornem comuns, veiculados e transmitidos por emissoras de televisão, rádio e portais eletrônicos. Precisamos investigar o passado, encontrar familiares, selecionar informações, contar o que aconteceu. Essas informações serão relevantes para que possamos contar a história da cidade e dar a justa homenagem a quem a construiu.

Andréa Cristiana Santos

sábado, 21 de julho de 2012

Sobre o amor e a amizade



Um dia, percorrendo os sebos à procura de um livro, deparei-me com alguns escritos do mexicano Octávio Paz. De cara, o livro tem um título instigante: A dupla Chama: amor e erotismo. Amarelado pelo tempo, o livro de cor vermelha chama a atenção para algo que desperta curiosidade desde os tempos remotos: o amor, esse sentimento que nos atrai, entrelaça destinos, aproxima e convida para a vida.

Sentimento esse que surge a partir da chama vermelha do erotismo, por isso é dupla. Sem a chama do erotismo, dificilmente o amor sobreviveria.  Há pessoas que podem pensar o contrário e apostar na amizade. Contudo, amor e amizade são sentimentos distintos.

Em uma das páginas do livro, o escritor mexicano diz que tanto o amor como a amizade são afetos escolhidos livremente, não são impostos. Somos amigo de uma pessoa, não de uma multidão. É ridículo pensar que somos amigos do gênero humano. Amizade exige cumplicidade, presença.  

A amizade sem reciprocidade é impossível. Imagine, ter amigos sem devotar a mínima consideração! Já quanto ao sentimento amoroso, podemos amar alguém, e não receber a mesma devoção. É triste, mas há pessoas que apenas amam, não são amadas. Porém, são escolhas que a vida nos traz e aceitamos, se assim desejarmos.

Já a amizade nasce de um sentimento mais complexo, a afinidade nas ideias, nos sentimentos ou nas inclinações. Como diz Octávio, no começo do amor, há a surpresa, o descobrimento da outra pessoa a quem nada nos liga senão a indescritível atração física, espiritual. O amor pode nascer de uma flechada, a amizade do intercâmbio frequente e prolongado. A amizade requer tempo. O amor é instantâneo.

Assim, ao longo dos anos, escolhemos os amigos, quase como uma extensão do nosso corpo, a quem buscamos para acalantar a alma, para aconselhar, para perdoar, para contar histórias, rir, chorar. A amizade é uma virtude eminentemente social, duradora, como procura refletir Octávio Paz. Já o sentimento amoroso é sempre uma ruptura, pode desafiar convenções, unir os amantes em um mundo particular. O afeto amoroso não aceita a partilha.  Somente um amigo pode nos oferecer isso. 

Nem mesmo quando a desventura amorosa assombrar os amantes, é impossível pensar em transformar o antigo afeto em amizade sincera, verdadeira. Pode ser algo semelhante, mas é outro sentimento.    

Mesmo diferentes, complementares, cada um dos afetos pode despertar o que há de melhor no nosso ser. Não importa onde estejamos, como somos, o que nos define e nos conforma é a capacidade que temos de fazer amigos, de amar e compartilhar sentimentos. Sem amigos, estamos à deriva, como um barco desgovernado. O amor é o cais, que queremos aportar. 

Texto de Andréa Cristiana, a partir da obra A dupla Chama - o amor e o erotismo, de Octávio Paz.
Foto de Dilton Oliveira, professor da UFBA.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Lembrar para não esquecer


Primeiro de abril de 1964, militares com apoio da população civil destituíram João Goulart e assumiram o poder. Em todo o país, trabalhadores, sindicalistas, membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), jornalistas, professores, escritores e parlamentares progressistas começam a ser presos pelo regime militar.

Em Juazeiro, a situação não foi diferente, como nos conta a jornalista em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia, Karem Moraes, em reportagem para o Gazzeta do São Francisco, na edição que começou a circular sábado e, ainda hoje, nas bancas. Logo nos primeiros dias, começou a perseguição aos trabalhadores do Sindicato dos Trabalhadores Fluviais e Marítimos, e aos artífices da Associação Beneficente dos Artífices Juazeirenses. 

O comunista Seu Saul Rosas, preso político na ditadura de Getúlio Vargas, fundou junto com outros companheiros a Associação, em 1928. Em 1964, foi inquirido e investigado por militares. Seu companheiro Antônio Bigodinho, marceneiro que morava na Rua Henrique Rocha, foi preso, juntamente com Francisco Tico e outros membros do partido e da associação de auxílio mútuo ao trabalhador. 

Assim como os Artífices, funcionários da Companhia de Navegação, que faziam parte do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Fluviais e Marítimos, foram perseguidos, como Seu Oswaldo Gomes, os irmãos José Benedito e Luis Benedito, e outros. As prisões ocorreram e familiares ficaram sem poder ver os parentes por meses. Mestre Oswaldo era dirigente do sindicato, ajudou a fundar o Partido Comunista na cidade e ficou preso durante 18 meses em Salvador. Até hoje o processo militar que conta como foi a sua prisão não está acessível. 

Em pesquisa feita há 10 anos, na sede da Polícia Federal, em Salvador, o Grupo Tortura Nunca Mais-BA e pesquisadores buscaram essa documentação referente a 1964. Não foi encontrada. Os arquivos sumiram, foram destruídos ou estão escondidos. Sem documentação, ficamos sem saber quantas outras pessoas foram presas e investigadas em todo o estado.

Por isso, relatos jornalísticos que documentem a prisão de pessoas na cidade de Juazeiro precisam ser veiculados e transmitidos por emissoras de televisão, rádio e portais eletrônicos. Precisamos investigar o passado, encontrar familiares, selecionar informações, contar o que aconteceu. É preciso ainda ouvir as instituições públicas para que elas coloquem os documentos disponíveis a todos. Não é possível construir o futuro, esquecendo que pessoas foram presas e sem compreender como a sociedade juazeiresne, baiana, reagiu ao golpe militar de 1964.

É preciso lembrar para não esquecer. É preciso lembrar porque não se constrói uma cidade sem contar a sua história corretamente e sem dar a justa homenagem a quem a construiu. 

Neste último sábado, Juazeiro completou 134 anos. Quem quer conhecer a sua história, procura ler os livros de memorialistas e historiadores da cidade. Nenhum deles conta a prisão dos comunistas no ano de 1964. Chegou a hora de, jornalisticamente, historicamente, retirar os véus que encobrem a nossa realidade. Pessoas como o professor Chico Romão, Francisco Tico, Antonio Bigodinho, Oswaldo Gomes, Jorge Leal, Seu Saul Rosas e tantos outros merecem que suas histórias de vida sejam conhecidas na cidade.

Andréa Cristiana Santos

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Lembrar para Resistir


Primeiro de abril de 1964: militares com apoio da população civil destituíram João Goulart e assumiram o poder. Isso foi há quase meio século. Porém, ainda não sabemos tudo que aconteceu no país. É como se houvesse uma névoa sobre o passado e tivéssemos receio de ir desvelando os véus que encobrem essa realidade.  

Felizmente, esses acontecimentos históricos começam a ser desvendados. Em maio deste ano, o Estado Brasileiro instituiu a Comissão da Verdade, com a finalidade de examinar, esclarecer as graves violações de direitos humanos, como prisões, mortes e desaparecimentos, praticados no período de 1964 a 1988, pelo direito à memória e à verdade histórica, como diz a Lei 12.528/11. 

A imprensa também tem contribuído para apurar e esclarecer os fatos históricos. Foi com alegria que li, na edição de quarta-feira do Gazzeta do São Francisco, a reportagem da jornalista em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia, Karem Moraes, sobre o cerceamento aos direitos políticos do vereador Jorge Gomes, em maio de 1964, pela Câmara dos Vereadores de Juazeiro, acusado de ser comunista e de realizar atividades subversivas.

Durante toda a quarta-feira conversei com pessoas que leram a matéria, algumas lembravam vagamente do episódio, outras afirmavam que nunca tinham ouvido falar. O silêncio, antes imposto por anos, finalmente se rompeu e nos provoca reflexão sobre como o Poder Legislativo e a sociedade civil se colocaram favoráveis à repressão política e militar contra pessoas consideradas uma ameaça à nação, principalmente trabalhadores e comunistas.

A decisão dos representantes da Câmara dos Vereadores de negar os direitos políticos do vereador também era consentida por diversos outros segmentos como empresários, classe média e a Igreja Católica em todo o país. As pessoas que presenciaram os dias seguintes ao golpe militar hão de lembrar da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, como a que aconteceu em Juazeiro em 3 de maio de 1964, como relatou o jornal Tribuna do Povo, de propriedade do vereador cassado.

Por isso, a cassação se reveste de um ineditismo para entender a ditadura militar na região e no país. A ditadura se manteve até a década de 1980 porque foi apoiada e sustentada por setores civis e militares, com a desculpa do medo do comunismo. E assim, durante 21 anos, ameaças, tortura, assassinatos, desaparecimentos políticos foram se alastrando em todo o país. Pelo caminho, as famílias recolhiam lembranças sofridas, tristezas e dor, ao saber de um parente morto ou ao relembrar da prisão de parentes. 

Quem não se lembra das prisões de pessoas aguerridas de Juazeiro, acusadas de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB)? Quem não se lembra de Mestre Osvaldo, do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Fluviais e Marítimos, preso durante 18 meses? Os filhos e esposa à mercê do medo, sem saber o que poderia acontecer. Quem não se lembra também do marceneiro Antônio Bigodinho, do alfaiate Francisco “Tito”, Benedito Pereira, do professor Chico Romão e tantos outros, cujas histórias de vida nem todos conhecem e que estão no esquecimento? Todos eles acusados de serem inimigos da nação. 

Muitos outros também foram presos, mas não constam na lista dos processos militares, alguns foram levados para interrogatórios, outros foram vigiados. Algumas pessoas são desaparecidos políticos, como Ruy Frazão, militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), preso na feira de Petrolina-PE, na manhã de 27 de maio de 1974. A família não pode velar o corpo, não teve direito ao luto, ao choro.

Por causa de episódios tristes como esses, é preciso que a imprensa procure esclarecimentos sobre os fatos históricos ocorridos no período da ditadura militar. É preciso também que se conservem os arquivos históricos. Muitas instituições, desrespeitando a Constituição Brasileira, queimaram, destruíram documentos. Felizmente, as atas da Câmara dos Vereadores foram preservadas e são, hoje, testemunhos de uma época de tirania e violência. 

Ao ler a matéria do Gazzeta do São Francisco, ficou-me a certeza, cada vez mais convicta, de que é preciso lembrar para resistir. Lembrar, apesar da dor. Relembrar, para que possamos contar aos nossos filhos quem foram as pessoas que lutaram, morreram e foram presas injustamente. 

Para os familiares, relembrar o passado é um momento de sofrimento, é retomar um fio de um novelo que estava esquecido. São lembranças tristes, causam dor. Mas é preciso lembrar para garantir uma memória e uma verdade histórica. É preciso lembrar para que assassinos não se mantenham impunes. 

Parabéns a Karem Moraes e ao Gazzeta do São Francisco, por nos contar parte dessa história. Que outros fatos históricos ocorridos em Juazeiro, Petrolina e em todo o país possam emergir do passado. Não para assombrar os mortos, mas para iluminar a caverna, propícia aos ladrões e tiranos. Somente assim, poderemos construir o futuro, sem nenhum receio do passado.

Andréa Cristiana, texto publicado na Seção Espaço do Leitor do Gazzeta do São Francisco, de 13 de julho de 2012. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Pela Verdade Histórica sobre o Golpe de 1964 em Juazeiro



Primeiro de abril de 1964, militares com apoio da população civil destituíram João Goulart e assumiram o poder. Já se foram 48 anos e muitos brasileiros ainda não conhecem essa parte importante da história do país, principalmente fatos históricos ocorridos em cidades como Juazeiro.  É como se houvesse uma névoa sobre o passado e tivéssemos receio de ir desvelando os véus que encobrem essa realidade.  

Felizmente, esses acontecimentos históricos começam a ser desvendados. Em maio deste ano, o Estado Brasileiro instituiu a Comissão da Verdade, com a finalidade de examinar, esclarecer as graves violações de direitos humanos, como prisões, mortes e desaparecimentos, praticados no período de 1964 a 1988. Tudo isso pelo direito à memória e à verdade histórica, como diz a Lei 12.528/11.

A imprensa também tem contribuído para buscar esclarecer os fatos históricos. Hoje, no Gazzeta do São Francisco, a jornalista em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia, Karem Moraes, nos contou parte dessa história ocorrida na cidade baiana.

Em 12 de maio de 1964, o vereador Manoel Lopes Sobreira pedia a cassação do representante de Jorge Gomes, do Partido Democrata Cristão (PDC), preso desde abril, acusado de subversão e comunismo. Em 14 de maio, a Câmara dos Vereadores, por meio do projeto de Resolução Número 127, cassa o mandato com a justificativa de que, estando preso, o vereador não poderia mais representar a Câmara e que a instituição não apoiava nenhuma atitude que denotasse amparo ao comunismo.

Radialista, proprietário do jornal Tribuna do Povo junto com o editor José Diamantino Assis (Zezito), Jorge Gomes não pertencia a nenhuma organização comunista. Foi vereador por três mandatos de 1951 a 1964.

Com a cassação, a Câmara dos Vereadores demonstrava que apoiava o golpe de Estado. Contudo, o vereador era inocente. Em fevereiro de 1965, a Câmara registrou em ata o recebimento de um radiograma vindo do Exército, que ordenava a volta de Jorge Gomes às suas funções políticas. De forma íntegra, o ex-vereador recusou-se.

Em carta enviada à Câmara dos Vereadores, no dia 12 de março de 1965, Jorge Gomes renunciava, de forma irrevogável, ao mandato e “afirmava aos colegas que não tinha delatado nenhum deles, mesmo àqueles que assinaram moção de solidariedade ao presidente Jango e ao então governador de Pernambuco, Miguel Arraes”.

A carta só foi registrada em ata no mês de novembro. Os vereadores silenciaram, bem como o gestor municipal, à época, Américo Tanuri.

Assim como Jorge Gomes, muitas pessoas aguerridas de Juazeiro foram presas, acusadas de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Mestre Osvaldo, da Companhia de Navegação, o marceneiro Antônio Bigodinho, Seu Saul Rosas, Seu Benedito Pereira, Chico Romão e outros, cujas histórias de vida nem todos conhecem e que estão no esquecimento. Todos eles se dedicavam às causas populares e foram acusados de serem inimigos da nação.

Algumas pessoas são desaparecidos políticos, como Ruy Frazão, militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), preso na feira de Petrolina-PE, na manhã de 27 de maio de 1974. A família não pode velar o corpo, não teve direito ao luto, ao choro.

Por causa de episódios tristes como esses, é preciso que se conservem os arquivos históricos. Muitas instituições, desrespeitando a Constituição Brasileira, queimaram, destruíram documentos. Felizmente, a Câmara dos Vereadores preservou as atas, que comprovam a cassação do vereador Jorge Gomes.

É preciso também que a imprensa procure esclarecimentos históricos sobre o passado. É preciso lembrar para contar aos nossos filhos, para garantir uma memória e uma verdade histórica. Para os familiares, sabemos que relembrar o passado é um momento de sofrimento. Relembrar de um pai, de um tio que sofreu a injustiça de ser preso, ameaçado na sua integridade física, é retomar um fio de um novelo, que estava esquecido. São lembranças tristes, causam dor.

Mas é preciso lembrar para não esquecer. É preciso lembrar para que assassinos não se mantenham impunes. Parabéns a Karem Moraes e ao Gazzeta do São Francisco, por nos contar essa história. Somente com acesso à verdade histórica, poderemos construir o futuro, sem receio do passado.

Andréa Cristiana Santos

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ode ao Dois de Julho



Comemorado nas ruas de Salvador, Bahia, o Dois de Julho é um marco no processo de construção da identidade nacional brasileira e da liberdade política no país. A data celebra o processo de independência do Brasil, e não apenas a da Bahia, cuja primeira batalha se iniciou em 25 de Junho de 1822 e se consagrou no Dois de Julho de 1823.

Do Grito do Ipiranga, às margens de um lago plácido em São Paulo, o domínio sobre o território nacional foi garantido na Bahia com luta e sentimento de nacionalidade. A liberdade no país não foi conquistada com paz e sem sangue, como nos ensinaram alguns professores no primário. 

Nem tampouco a independência do Brasil-Bahia deve ser comemorada apenas nas ruas de Salvador. Essa data é nossa, de toda a Bahia, do acarajé com dendê do recôncavo ao agreste das poucas chuvas; do feijão de Irecê e de minha terra Paripiranga; do semiárido nordestino, banhado pelo Velho Chico; das caatingas e do doce do cacau de Ilhéus. O Dois de Julho é de toda a Bahia.

Uma guerra da Bahia, na qual brilhou o heroísmo do cabloco e da cabloca, de heróis folclóricos como Corneteiro Lopes - o português que resolveu lutar com os brasileiros pela emancipação do país - e de heroínas como Maria Quitéria, símbolo da força da mulher e das futuras lutas femininas. 

Ao Dois de Julho, devemos lembrar como uma luta eminentemente popular contra as elites coloniais mais conservadoras, em cujo campo de batalha “nenhum filho de dono de engenho se alistou para lutar", como escreveu o General Labatut, comandante das tropas a José Bonifácio.

Assim, a consciência de que poderíamos construir uma nação livre começou com os anseios populares, luta que depois consagraria a destituição de Dom Pedro I ao império, em 1831; as lutas de cabanagem, balaiada; a conquista pela abolição da escravidão (1888), pela República, em 1889, saudando, com o espírito republicano, o sonho de um dia construirmos uma democracia.

Nestes embates pela liberdade, a imprensa como um instrumento de luta e construção da esfera pública esteve presente, promovendo a circulação de ideias, mudanças e transformações. Pela Independência da Bahia, consagrou-se o Constitucional, jornal empastelado pelos portugueses na capital baiana em 1822. Transferido para Cachoeira, refez-se a tipografia e as ideias puderam circular em meio a batalhas por corações e mente no Dois de Julho.

Nesse momento em que a própria identidade do profissional jornalista é falsamente desconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que julgou que jornalismo é arte, literatura e poesia, lembremos que o jornalismo é essencial para a democracia e pela conquista por corações e mentes. Se não fosse assim, muitas das lutas pela independência do país, como o próprio Dois de Julho, não teriam tido a participação de O Constitucional nas trincheiras pela liberdade política no país.

Para lembrar – porque lembrar é resistir ao esquecimento, propício aos assassinos e à tirania – recordemos o Dois de Julho como uma festa eminentemente popular, aguerrida e heróica. Como bem saudou o poeta Castro Alves, no seu Ode ao Dois de Julho.

Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A Liberdade — em frente à Escravidão,
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!...

Por Dois de Julho, por um país verdadeiramente livre e independente, dizemos presente!

Andréa Cristiana Santos, jornalista e professora do DCH
Texto publicado no dia 2 de Julho de 2009, na edição do Gazzeta do São Francisco e no MultiCiência.
Foto de Marco Aurélio Martins coletada no site A Tarde

sábado, 30 de junho de 2012

Até mais ver




As chamas da fogueira já se extinguiram com mais uma noite de São Pedro, na última reverência aos festejos a São José, Santo Antônio e a São João do Carneirinho. Agora, nas comunidades rurais, é hora de esperar a colheita dos frutos agrícolas. Ao longo dos anos, por tradição familiar, sempre associei as festas juninas ao tempo do plantio, da boa aventurança, da fartura e da lida na colheita do feijão e do milho.

Agora, o tempo é reinventado pelas novas tecnologias e pela facilidade dos produtos vendidos no supermercado. Em alguns lugares, banhados pela fartura da irrigação, já não é necessário esperar as chuvas; em outras, como na região semiárida, o tempo é de escassez de água. Com a estiagem prolongada desse ano, foram poucas as famílias que conseguiram assar o milho na fogueira e fazer a pamonha. A flor do milho não brotou.

Na noite de São João, minha mãe teve um pouco de sorte. Fez a canjica com o milho plantado em uma área irrigada no agreste da cidade baiana de Paripiranga. Espantada, ela me contava que o vizinho teve uma pequena colheita, pois aproveitara as águas de um poço artesiano. É o tempo se reinventando pelas tecnologias, pela água que brota do poço. E me lembrei de quando íamos para a roça colher algumas espigas germinadas com as águas do mês de março, abençoadas por São José. Foi-se o tempo... 

Nesse ano, distante do lugar onde nasci, cresci, tive que me contentar com a canjica comprada no shopping center. Isso porque, no ano passado, os meus dotes culinários não passaram no teste. Experimentei grãos semipreparados, desses encaixotados numa caixa que nos promete o gostinho familiar de canjiquinha. No máximo, ficou um mingau de milho! Quem manda não ter aprendido a receita da avô, passada para a mãe! A modernidade tem disso, alguns se esquecem de aprender com os antepassados. 

Para não ficar sem o sabor da infância rememorada pelas festas, recorri a compra de última hora: a canjica de Cássia salvou o meu São João. Mas também teve o bolo delicioso de milho. Salve, salve Adriana!

Mas se é chegada a hora de guardar o licor, varrer a brasa da fogueira de São Pedro, em homenagem a meu pai que se chamava Pedro, de guardar a blusa de xadrez, também é o momento de pensar no que se eterniza, como as memórias que reforçam os nossos laços de pertencimento com a família, com a infância que permanece cá dentro de nós, com os amigos que se reuniram, com a tradição dos terços e novenas, com a musicalidade do forró. Memórias que nos situam em um tempo social, lugar e reafirmam algumas tradições, ressignificadas pelas mudanças sociais, novos hábitos, costumes. 

Para nós, nordestinos, é tempo de relembrar as músicas de Luiz Gonzaga, que este ano comemoraria 100 anos se vivo estivesse; outros dirão que é hora de lembrar as canções dos grupos universitários e dos festejos no palco eletrônico. Cada pessoa se emociona, se envolve com o que mais acalanta o coração. Para cada um, independente do gosto musical, o festejo junino será sempre um viva à esperança. Até mais ver São José, Santo Antônio, São João do Carneirinho e São Pedro...

Por Andréa Cristiana (T)
Fotos gentilmente cedidas pelo jornalista e fotojornalista Emerson Rocha.

A menina




Quem não se emociona com o colorido da festa junina, com as cores do vestido,com a música, com o gostinho das comidas..? Sempre é bom festejar o São João. Como disse o jornalista Xico Sá em um artigo,  "esta festa que no Nordeste consegue ser mais importante que o Natal, o Carnaval"...Para celebrar tudo isso, agradeço a minha amiga e fotojornalista Patrícia Telles que fez essa linda imagem de "A menina"...e Viva São João que se despede de nós até o próximo ano.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quando uma noite pode terminar em chamas


Morar em uma metrópole traz muitos desafios e exige uma certa impessoalidade. Adaptar-se a essa nova realidade requer novas posturas. Uma delas é a atitude blasé, termo usado pelo antropólogo Georg Simmel para caracterizar o comportamento dos habitantes das cidades urbanas, que, para não serem massacrados pelo excesso de acontecimentos quotidianos, procuram agir reservadamente, com indiferença.

É assim que, nos edifícios, nas ruas ninguém parece mais reagir ao caminhar apressado do outro em busca do trabalho; nem na nordestina que pergunta onde encontrar uma rua. Afinal, com sistema Google Maps é mais fácil encontrá-la do que perguntar ao jornaleiro da esquina, mesmo que ele more no bairro há 30 anos. 

Tudo se transforma em números, na indiferença necessária para que as pessoas não sejam distinguidas da multidão. Assim, o transporte público segue códigos, e não adianta perguntar ao vizinho qual “buzu” passa no bairro mais próximo.  Com certeza, vai ouvir uma sequência de números. 

E assim, a vida segue. Você compra pão todo dia na mesma padaria, mas o atendente finge que não te reconhece. Imagina, se vai desejar bom dia. É comprar o pão e ficar satisfeito se ele olhar para você na hora de entregar. Na convivência com colegas de trabalho, também não espere receptividade  de imediato. As pessoas vão falar pouco de si. 

Pois bem, já estava me acostumando com essas atitudes blasé, quando em uma noite acordei com barulho de vidro se quebrando. Ao longe, ouvi gritos. Pensei: poxa, será que teve confusão nos botecos e alguém se machucou. Como os gritos continuavam, corri para a janela. Virgem Maria, fogo! O apartamento do vizinho do quarto andar estava em chamas. Na hora, as pernas tremaram, estava no sétimo andar e não sabia o que fazer. O fogo se alastrava para o apartamento do quinto andar. 

Liguei logo para o marido, a dois mil quilômetros, mas era a única pessoa que poderia chamar naquela hora. A resposta imediata foi: vista-se, pegue os documentos, uma toalha molhada e desça as escadas. Fiz quase tudo isso em segundos, enquanto a rua era tomada pelas sirenes do carro de bombeiros. Se por um lado foi um alívio, a fumaça que avançava pelos corredores do prédio me fez ver que era impossível descer as escadas. 

Nesse momento, os vizinhos também acordaram. E, pela primeira vez, em três meses, reconheci rostos que nunca tinha visto. Um homem, que descobri se tratar do subsíndico, corria apressado pelo corredor, com mangueiras d’água; a moça do oitavo andar desceu esbaforida pelas escadas, porque acordara com fumaça no quarto; uma senhora pedia calma e o meu vizinho que parecia já ter presenciado incêndio semelhante foi logo dizendo: só assim a gente conhece quem mora no prédio! 

Às quatro horas da manhã, todos se protegiam do incêndio. Uma hora depois, o fogo foi extinto. O apartamento do quarto andar totalmente destruído; o quinto, também, e o sexto com pequenos estragos na tela de proteção da janela.  

Depois de tudo calmo, a atitude blasé tinha deixado de existir. Se antes os corredores do prédio se mantinham vazios, agora por entre suas portas saía todo tipo de gente, os tipos mais extraordinários, demonstrando a multiplicidade de pessoas e comportamento. A senhora que morava no sexto andar caminhava de camisola com toalha no rosto; a sua vizinha dizia a todos que o incêndio nem fora grave. Há seis anos, todo o segundo andar ficou em chamas. E ela, que morava há 42 anos no prédio, avisava: para morar aqui, é preciso se acostumar com incêndio. Vixe, isso eu não quero não!, pensei.

Depois, começou o disse-me-disse sobre as causas do incêndio. Ninguém sabia ao certo, apenas que o morador do quarto andar desceu as escadas gritando que o apartamento estava em chamas. E as especulações continuaram durante todo o dia. Para aquietar os moradores, o sindico colocou uma mensagem informando que a perícia investigaria as causas do sinistro. Por ora, era essa a única informação disponível.

Curiosa, perguntei aos porteiros. Sem sucesso. Três dias depois, encontrei casualmente o síndico no elevador. Conversa-vai-conversa-vem, perguntei sobre a causa do incêndio. 
- Curto-circuito no ar condicionado, respondeu. 
- E o morador, já se recuperou?
- Não tem morador. O dono emprestou a chave para um amigo que precisou dormir com uma amiga naquela noite. 

Ah, então foi isso.....Só me restava gargalhar da situação. A noite tinha sido realmente quente, labaredas foram consumidas e o prejuízo enorme. O bom é que, por horas, o prédio perdeu a sua sisudez característica, deixara de ser apenas uma estrutura com doze andares, vinte apartamentos de apenas 40 metros. O prédio era gente de diversas feições, gostos, culturas, uma babel cosmopolita, que me causou riso, depois de recuperada do susto. Enfim, naquela madrugada, a atitude blasé não resistiu ao incêndio. 

Reagimos a sinal de fogo, pelo menos! 

Andréa Cristiana Santos. Texto publicado na edição do Gazzeta do São Francisco.
A foto foi feita pelo jornalista Raphael Leal, procurando capturar o nascer do dia. 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Tessituras



Um dia folheando um livro, encantei-me com a palavra Ariadne, alusão ao mito grego da jovem que procura salvar o seu amado Teseu, perdido no labirinto e, possivelmente, prestes a ser devorado pelo minotauro. Para que não se esvaísse no labirinto, como outros jovens sacrificados, Ariadne sugeriu que ele fugisse. Teseu resistiu, enfrentaria o minotauro. Então, ela desfiou o novelo e o entregou, por entre seus dedos segurou uma parte do novelo, ele a outra. Caso fosse vitorioso, ele retornaria, bastava seguir o fio. O guerreiro, por fim, retornou para Ariadne.


Muito tempo depois, encontrei esta palavra novamente. Fio de Ariadne, agora, significava a capacidade que temos de coser o futuro e relembrar tudo que vivemos. Desfiar o fio é como um retorno, um olhar para si, para o outro, para ver o que o futuro nos reserva. 

Como diz a pesquisadora Eclea Bosi, para localizar uma lembrança, não basta apenas um fio de Ariadne é preciso desenrolar fios de meadas diversas, pois o ato de lembrar é um ponto de convergência dos muitos planos do nosso passado. 

Seguindo as pistas de Éclea, pretendo narrar algumas histórias, desfiar lembranças, narrativas de mim, sobre outros (cada pessoa sempre traz as marcas de tantas outras pessoas) e sobre o jornalismo. A tessitura para tudo isso ainda é uma incógnita, mas ela pode se chamar memória

Andréa Cristiana (Texto)
Foto do professor Dogival Torquato, do rio em Curaçá.