sexta-feira, 13 de julho de 2012

Lembrar para Resistir


Primeiro de abril de 1964: militares com apoio da população civil destituíram João Goulart e assumiram o poder. Isso foi há quase meio século. Porém, ainda não sabemos tudo que aconteceu no país. É como se houvesse uma névoa sobre o passado e tivéssemos receio de ir desvelando os véus que encobrem essa realidade.  

Felizmente, esses acontecimentos históricos começam a ser desvendados. Em maio deste ano, o Estado Brasileiro instituiu a Comissão da Verdade, com a finalidade de examinar, esclarecer as graves violações de direitos humanos, como prisões, mortes e desaparecimentos, praticados no período de 1964 a 1988, pelo direito à memória e à verdade histórica, como diz a Lei 12.528/11. 

A imprensa também tem contribuído para apurar e esclarecer os fatos históricos. Foi com alegria que li, na edição de quarta-feira do Gazzeta do São Francisco, a reportagem da jornalista em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia, Karem Moraes, sobre o cerceamento aos direitos políticos do vereador Jorge Gomes, em maio de 1964, pela Câmara dos Vereadores de Juazeiro, acusado de ser comunista e de realizar atividades subversivas.

Durante toda a quarta-feira conversei com pessoas que leram a matéria, algumas lembravam vagamente do episódio, outras afirmavam que nunca tinham ouvido falar. O silêncio, antes imposto por anos, finalmente se rompeu e nos provoca reflexão sobre como o Poder Legislativo e a sociedade civil se colocaram favoráveis à repressão política e militar contra pessoas consideradas uma ameaça à nação, principalmente trabalhadores e comunistas.

A decisão dos representantes da Câmara dos Vereadores de negar os direitos políticos do vereador também era consentida por diversos outros segmentos como empresários, classe média e a Igreja Católica em todo o país. As pessoas que presenciaram os dias seguintes ao golpe militar hão de lembrar da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, como a que aconteceu em Juazeiro em 3 de maio de 1964, como relatou o jornal Tribuna do Povo, de propriedade do vereador cassado.

Por isso, a cassação se reveste de um ineditismo para entender a ditadura militar na região e no país. A ditadura se manteve até a década de 1980 porque foi apoiada e sustentada por setores civis e militares, com a desculpa do medo do comunismo. E assim, durante 21 anos, ameaças, tortura, assassinatos, desaparecimentos políticos foram se alastrando em todo o país. Pelo caminho, as famílias recolhiam lembranças sofridas, tristezas e dor, ao saber de um parente morto ou ao relembrar da prisão de parentes. 

Quem não se lembra das prisões de pessoas aguerridas de Juazeiro, acusadas de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB)? Quem não se lembra de Mestre Osvaldo, do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Fluviais e Marítimos, preso durante 18 meses? Os filhos e esposa à mercê do medo, sem saber o que poderia acontecer. Quem não se lembra também do marceneiro Antônio Bigodinho, do alfaiate Francisco “Tito”, Benedito Pereira, do professor Chico Romão e tantos outros, cujas histórias de vida nem todos conhecem e que estão no esquecimento? Todos eles acusados de serem inimigos da nação. 

Muitos outros também foram presos, mas não constam na lista dos processos militares, alguns foram levados para interrogatórios, outros foram vigiados. Algumas pessoas são desaparecidos políticos, como Ruy Frazão, militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), preso na feira de Petrolina-PE, na manhã de 27 de maio de 1974. A família não pode velar o corpo, não teve direito ao luto, ao choro.

Por causa de episódios tristes como esses, é preciso que a imprensa procure esclarecimentos sobre os fatos históricos ocorridos no período da ditadura militar. É preciso também que se conservem os arquivos históricos. Muitas instituições, desrespeitando a Constituição Brasileira, queimaram, destruíram documentos. Felizmente, as atas da Câmara dos Vereadores foram preservadas e são, hoje, testemunhos de uma época de tirania e violência. 

Ao ler a matéria do Gazzeta do São Francisco, ficou-me a certeza, cada vez mais convicta, de que é preciso lembrar para resistir. Lembrar, apesar da dor. Relembrar, para que possamos contar aos nossos filhos quem foram as pessoas que lutaram, morreram e foram presas injustamente. 

Para os familiares, relembrar o passado é um momento de sofrimento, é retomar um fio de um novelo que estava esquecido. São lembranças tristes, causam dor. Mas é preciso lembrar para garantir uma memória e uma verdade histórica. É preciso lembrar para que assassinos não se mantenham impunes. 

Parabéns a Karem Moraes e ao Gazzeta do São Francisco, por nos contar parte dessa história. Que outros fatos históricos ocorridos em Juazeiro, Petrolina e em todo o país possam emergir do passado. Não para assombrar os mortos, mas para iluminar a caverna, propícia aos ladrões e tiranos. Somente assim, poderemos construir o futuro, sem nenhum receio do passado.

Andréa Cristiana, texto publicado na Seção Espaço do Leitor do Gazzeta do São Francisco, de 13 de julho de 2012. 

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