segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ode ao Dois de Julho



Comemorado nas ruas de Salvador, Bahia, o Dois de Julho é um marco no processo de construção da identidade nacional brasileira e da liberdade política no país. A data celebra o processo de independência do Brasil, e não apenas a da Bahia, cuja primeira batalha se iniciou em 25 de Junho de 1822 e se consagrou no Dois de Julho de 1823.

Do Grito do Ipiranga, às margens de um lago plácido em São Paulo, o domínio sobre o território nacional foi garantido na Bahia com luta e sentimento de nacionalidade. A liberdade no país não foi conquistada com paz e sem sangue, como nos ensinaram alguns professores no primário. 

Nem tampouco a independência do Brasil-Bahia deve ser comemorada apenas nas ruas de Salvador. Essa data é nossa, de toda a Bahia, do acarajé com dendê do recôncavo ao agreste das poucas chuvas; do feijão de Irecê e de minha terra Paripiranga; do semiárido nordestino, banhado pelo Velho Chico; das caatingas e do doce do cacau de Ilhéus. O Dois de Julho é de toda a Bahia.

Uma guerra da Bahia, na qual brilhou o heroísmo do cabloco e da cabloca, de heróis folclóricos como Corneteiro Lopes - o português que resolveu lutar com os brasileiros pela emancipação do país - e de heroínas como Maria Quitéria, símbolo da força da mulher e das futuras lutas femininas. 

Ao Dois de Julho, devemos lembrar como uma luta eminentemente popular contra as elites coloniais mais conservadoras, em cujo campo de batalha “nenhum filho de dono de engenho se alistou para lutar", como escreveu o General Labatut, comandante das tropas a José Bonifácio.

Assim, a consciência de que poderíamos construir uma nação livre começou com os anseios populares, luta que depois consagraria a destituição de Dom Pedro I ao império, em 1831; as lutas de cabanagem, balaiada; a conquista pela abolição da escravidão (1888), pela República, em 1889, saudando, com o espírito republicano, o sonho de um dia construirmos uma democracia.

Nestes embates pela liberdade, a imprensa como um instrumento de luta e construção da esfera pública esteve presente, promovendo a circulação de ideias, mudanças e transformações. Pela Independência da Bahia, consagrou-se o Constitucional, jornal empastelado pelos portugueses na capital baiana em 1822. Transferido para Cachoeira, refez-se a tipografia e as ideias puderam circular em meio a batalhas por corações e mente no Dois de Julho.

Nesse momento em que a própria identidade do profissional jornalista é falsamente desconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que julgou que jornalismo é arte, literatura e poesia, lembremos que o jornalismo é essencial para a democracia e pela conquista por corações e mentes. Se não fosse assim, muitas das lutas pela independência do país, como o próprio Dois de Julho, não teriam tido a participação de O Constitucional nas trincheiras pela liberdade política no país.

Para lembrar – porque lembrar é resistir ao esquecimento, propício aos assassinos e à tirania – recordemos o Dois de Julho como uma festa eminentemente popular, aguerrida e heróica. Como bem saudou o poeta Castro Alves, no seu Ode ao Dois de Julho.

Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A Liberdade — em frente à Escravidão,
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!...

Por Dois de Julho, por um país verdadeiramente livre e independente, dizemos presente!

Andréa Cristiana Santos, jornalista e professora do DCH
Texto publicado no dia 2 de Julho de 2009, na edição do Gazzeta do São Francisco e no MultiCiência.
Foto de Marco Aurélio Martins coletada no site A Tarde

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