segunda-feira, 16 de julho de 2012

Lembrar para não esquecer


Primeiro de abril de 1964, militares com apoio da população civil destituíram João Goulart e assumiram o poder. Em todo o país, trabalhadores, sindicalistas, membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), jornalistas, professores, escritores e parlamentares progressistas começam a ser presos pelo regime militar.

Em Juazeiro, a situação não foi diferente, como nos conta a jornalista em Multimeios, da Universidade do Estado da Bahia, Karem Moraes, em reportagem para o Gazzeta do São Francisco, na edição que começou a circular sábado e, ainda hoje, nas bancas. Logo nos primeiros dias, começou a perseguição aos trabalhadores do Sindicato dos Trabalhadores Fluviais e Marítimos, e aos artífices da Associação Beneficente dos Artífices Juazeirenses. 

O comunista Seu Saul Rosas, preso político na ditadura de Getúlio Vargas, fundou junto com outros companheiros a Associação, em 1928. Em 1964, foi inquirido e investigado por militares. Seu companheiro Antônio Bigodinho, marceneiro que morava na Rua Henrique Rocha, foi preso, juntamente com Francisco Tico e outros membros do partido e da associação de auxílio mútuo ao trabalhador. 

Assim como os Artífices, funcionários da Companhia de Navegação, que faziam parte do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Fluviais e Marítimos, foram perseguidos, como Seu Oswaldo Gomes, os irmãos José Benedito e Luis Benedito, e outros. As prisões ocorreram e familiares ficaram sem poder ver os parentes por meses. Mestre Oswaldo era dirigente do sindicato, ajudou a fundar o Partido Comunista na cidade e ficou preso durante 18 meses em Salvador. Até hoje o processo militar que conta como foi a sua prisão não está acessível. 

Em pesquisa feita há 10 anos, na sede da Polícia Federal, em Salvador, o Grupo Tortura Nunca Mais-BA e pesquisadores buscaram essa documentação referente a 1964. Não foi encontrada. Os arquivos sumiram, foram destruídos ou estão escondidos. Sem documentação, ficamos sem saber quantas outras pessoas foram presas e investigadas em todo o estado.

Por isso, relatos jornalísticos que documentem a prisão de pessoas na cidade de Juazeiro precisam ser veiculados e transmitidos por emissoras de televisão, rádio e portais eletrônicos. Precisamos investigar o passado, encontrar familiares, selecionar informações, contar o que aconteceu. É preciso ainda ouvir as instituições públicas para que elas coloquem os documentos disponíveis a todos. Não é possível construir o futuro, esquecendo que pessoas foram presas e sem compreender como a sociedade juazeiresne, baiana, reagiu ao golpe militar de 1964.

É preciso lembrar para não esquecer. É preciso lembrar porque não se constrói uma cidade sem contar a sua história corretamente e sem dar a justa homenagem a quem a construiu. 

Neste último sábado, Juazeiro completou 134 anos. Quem quer conhecer a sua história, procura ler os livros de memorialistas e historiadores da cidade. Nenhum deles conta a prisão dos comunistas no ano de 1964. Chegou a hora de, jornalisticamente, historicamente, retirar os véus que encobrem a nossa realidade. Pessoas como o professor Chico Romão, Francisco Tico, Antonio Bigodinho, Oswaldo Gomes, Jorge Leal, Seu Saul Rosas e tantos outros merecem que suas histórias de vida sejam conhecidas na cidade.

Andréa Cristiana Santos

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